quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

SELHAMA - O FENÔMENO PARANORMAL


(REFLEXÕES SOBRE A PARANORMALIDADE COMO UM SENTIDO DE VIDA)

 Celso e Junko Sato Prado - Dezembro de 1999

CRÉDITOS - Capa: 'Mistérios do Desconhecido' - Viagens Psíquicas, Fases de uma EEC, Editores de Time-Life Livros, Abril Livros-RJ, 1992: 49.
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DO QUE SE TRATA ESTE TRABALHO

A história de uma jovem que, no caminho de sua independência aparentemente normal, de repente e de maneira estranha atira-se à rejeição de si mesma para, então, se dedicar a uma louca paixão, consubstanciada no estranho ato de amar um morto, ou a alma daquele, seja lá o que for, num esforço desesperado e secreto de trazer o seu amado de volta à vida terrena, através de um processo de materialização ectoplasmática efetiva e independente, com presença física visível, conforme também o desejo ditado pelo pretenso espírito, que a ela somaria forças para consumação dos propósitos. 

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DIREITOS AUTORAIS: 
Romance original de Celso Prado, escrito em Paraguaçu Paulista - SP e digitalizado aos 16 de dezembro de 1999.
Para a atual versão - corrigida e atualizada, em junho de 2016, contou com colaboração de Junko Sato Prado.
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UM LUGAR PITORESCO ONDE TODOS SE CONHECIAM*

No ano 1748 o Conselho Ultramarino de Portugal, a serviço no Brasil Colônia, comunicou ao rei a existência de habitações numa certa região do Vale do Ribeira, com características de bairro rural, ocupadas por negros fugidos. 
Aquilo era um Quilombo, de acordo com a classificação dada, desde 1740, a "toda habitação de negros fugidos, que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados e nem se achem pilões nele", e a ordem de governo era, quando encontrado um, arrasá-lo e prender seus moradores, permitindo-se inclusive o extermínio, em caso de resistências. 
Todavia a tal localidade estava em área de conflito territorial, entre os reinos espanhol e português, face o Imaginário de Tordesilhas cujo divisor findava na Ilha do Meio em Cananéia, segundo a Espanha, ou em Laguna conforme exigia Portugal, assim aquela extensão uma espécie de terra de ninguém. 
A situação agravara-se desde a Provisão Régia portuguesa de 4 de janeiro de 1742, que desmembrou Laguna da Capitania de São Paulo, anexando-a ao Rio de Janeiro, sob protestos e ameaças do reino espanhol, que contava momentânea e circunstancialmente com a simpatia dos paulistas, sem dúvidas prejudicados com a dita disposição real lusitana. 
Dada situação, o Conselho Ultramarino requeria e aguardava ordens de Sua Majestade quanto ao assunto, ou seja, invadir o lugar, prender os moradores e devolvê-los aos legítimos donos ou, na impossibilidade de captura, então exterminá-los em maior número, escorraçando sobreviventes para outras bandas, destruindo-lhes os ranchos, plantações e fortalezas existentes.
Quando chegou a ordem de Portugal para tomar o Quilombo, não mais havia moradores por lá, pois já se sabiam descobertos desde que avistaram soldados portugueses nas imediações. Certamente os brancos foram informados daquela comunidade negra, pelos índios dispostos na região a serviço dos conquistadores. 
Dizem, assim, aquele lugar se formou primeiro com a presença de africanos que ousaram a liberdade por conta própria. Eram negros à força arrancados da África e postos diretamente mineradores nas águas do Apiaí e cabeceiras do Paranapanema, de onde fugiram para se instalar entre morros e montanhas, numa posição segura onde não eram vistos, porém tudo podiam observar.
Mas não se sabe desde quando a formação daquele reduto, talvez décadas em segurança, pela extensão dos roçados, das boas casas construídas, onze delas espalhadas em pequenas propriedades com aguadas, todas convergentes para um ponto central onde uma grande construção que servia, além da casa destinada ao líder, ao deposito comunitário destinado à guarda de materiais e instrumentos de trabalho, inclusive de mineração, além de estocagem de gêneros alimentícios, a significar organização político-social e econômica com regras estabelecidas. Outro grande cômodo agregado àquela construção destinava-se às reuniões e cultos.
Interiorizando-se pelas matarias próximas havia uma trilha que parecia indicar locais de mineração.
A descoberta de um lugar aparentemente próspero podia indicar riquezas, uma suspeita entendida real quando encontrados alguns caminhos abertos por entre as matarias, que bem podiam conduzir a áreas de minerações. Isto nunca ficou comprovado, talvez o quilombola apenas ensejasse conduzir os brancos, ávidos por riquezas, para outras direções que não em seu encalço, diante de algum possível ataque.
Com a expectativa de lucros os reinóis não destruíram nada dali, antes fizeram ocupar e cuidar o lugar, desde então cabeça de entrada e corredor de passagem para as possíveis zonas de minerações, oferecendo pouso, empório e sentinela avançada para os passantes que demandavam a região em busca de riquezas.
Logo se descobriu que não havia nenhum ouro por aquelas bandas que compensassem explorações significativas, mas por lá permaneceram os descendentes dos desbravadores, pequenos proprietários ruralistas, mamelucos na maioria, cafuzos e mulatos.
Talvez o lugarejo jamais tenha experimentado algum tipo progresso desde a chegada dos primeiros brancos, senão pela sua população estável. Sabe-se lá como, mas o fato é que em 1856 lhe foi dado distinção político-administrativa de município, muito mais pelo prestígio do antigo sesmeiro Domingos Pereira de Oliveira, que reservou aquele lugar para sua família desde 1847, quando vendeu suas outras terras, na região atual de Miracatu, ao francês Pierre Laragnoit, por um milhão de réis.
A primeira eleição ocorreu em 1858, quando eleitos os Vereadores e escolhido o primeiro prefeito, na verdade Intendente, assumido pelo primogênito de Domingos Pereira; aliás, a Câmara toda foi composta de cinco parentes do velho latifundiário e dois indicados seus.
Mais de um século depois, em 1964, a política local ainda continuava assim, parentes eleitos ou indicados que apontavam sucessores para o executivo, lado a lado com Vereadores que se reelegiam tantas vezes quanto a saúde e a vida lhes permitissem, substituídos sempre por familiares ou agregados à família, um continuísmo marasmado tanto, que o antigo vilarejo formado de um próspero Quilombo se mostra pequena cidade no Vale da Ribeira onde o progresso teimava não chegar.
Lá não tinha agência do Banco do Brasil nem a denominada seita Cristã no Brasil e, com isso também não havia médico – a igreja evangélica e a agência bancária eram amostragens de progresso inicial de algum lugar, pronta para algum profissional de saúde – e o povo vivia sem infraestrutura alguma, ausência quase total de saneamento básico, com as trágicas consequências de alto índice de mortalidade infantil e de mulheres. 
A localidade não oferecia nenhuma motivação para que seus jovens lá permanecessem, ou que novas famílias desejassem fixar-se; o município, imenso território, consistia muito mais em grandes propriedades improdutivas nas mãos de latifundiários, grileiros que se intitulavam donos de terras devolutas, pelas quais o Estado não se interessava ou as mantinha como reservas florestais. Agentes do governo nunca chegavam por ali.
De interesse para a economia local apenas uma fazenda produtiva e de porte, cujo proprietário associava-se aos chacareiros da periferia urbana, e aos pequenos proprietários de sítios incrustados entre morros e serras, para manter o comércio e quase que a vida local com geração de uns poucos empregos. 
O bazar era do 'Turco', a venda do 'Japonês', a padaria do 'Português', o bar do 'Nhô Pinga' – caboclo bom que sempre acompanhava o freguês em mais uma. O açougue, que funcionava somente nos fins de semana, pertencia à 'Viúva do Lago' – uma referência ao marido que morrera afogado numa lagoa da região e de quem herdara a propriedade, a custos tocada pelo filho mais velho que, nos dias normais, brigava com a atividade agropecuária de sustentação.
Mas a cidade tinha mais: a farmácia onde um prático, o 'Zé da Aguia' [a língua de todos se recusava pronunciar agulha], fazia às vezes de médico, dentista e, nas horas de folga quase sempre, mantinha a barbearia, lotada nos dias de sábado ou vésperas de datas santificadas, quando o padre vinha celebrar missa e promover a quermesse. 
O 'Zé da Aguia' também tinha o ofício de organizar e arbitrar partidas de futebol aos domingos, quando não chovia na véspera ou fizesse tempo feio no dia, e, para tantas atividades, o bom homem valia-se do auxílio da mulher, Sinhá Anna, única parteira dali, que de tão benquista era madrinha obrigatória de quase todas crianças que nasciam por suas mãos. Com todo esse carisma, quase venerada, Sinhá Anna já conseguira fazer do marido três vezes prefeito do local.
Aliás, um antepassado de Sinhá foi o primeiro Prefeito eleito, quando o Distrito assumiu condições de Alcaidaria, e que indicou e fez eleger um tio, com o qual se revezou no poder duas vezes, até que um filho se fez maior e assumiu a Chefia do Executivo quando o tio, titular do cargo, morreu 'do coração'. A partir daí filho indica o pai que indica outro filho que indica o irmão, porque o pai havia falecido, chegando em certo tempo a vez de Sinhá que, por ser mulher, abriu mão da disputa em favor do marido, a entender ela que política era coisa de homem.
Sinhá Anna casara cedo e teve filhos, oito homens lhe nasceram, um deles chegou morto e outro Deus levou cedo, mas aqueles que vingaram, à medida que atingiam idade maior transformavam-se vereadores, nenhum deles a optar pela carreira de prefeito que era exclusividade do pai, que num mandato, no outro o filho mais velho do 'Espanhol' ou quem esse viesse indicar, e depois lá estava o 'Zé da Aguia' a virar 'Zé Prefeito' por mais quatro anos.
Naquele lugarejo, ninguém se interessava por política, isto estava mais no sangue da parteira para não deixar morrer o lugar, e o candidato indicado concorria sempre com oposição arranjada, para dar ares de democracia. No entanto, já de uns pleitos para o período de então, se podia observar ingratidões crescentes com o aumento daqueles que votavam contra, obviamente não identificados em razão do voto secreto, o que fazia a parteira desconfiar de todos e até de fraude eleitoral.
Homem rico dali apenas o 'Espanhol', Guido Lopez de Larosa, dono de razoável fazenda, onde fazia plantações, mantinha gado de corte e leiteiro, empregava gentes e incrementava o comércio. Fez os filhos e filhas estudarem na Capital, sendo a filha mais velha a primeira professora da única escola, depois duas sobrinhas para dividir a labuta e a filha ser diretora do Grupo Escolar, até que o filho mais novo foi eleito prefeito e conseguiu trazer curso ginasial e novos professores. 
O filho do 'Espanhol' que foi eleito prefeito arrumou depois emprego no governo do estado e foi embora, para a capital, por achar que por ali não havia mais nada a fazer.
Ainda tinha o velho doutor Genivaldo a fazer às vezes de Delegado de Polícia, sem ser doutor, auxiliados por dois praças preguiçosos, os três muito amigos de todos dali, conselheiros de poucos velhos bêbados amargurados, ou de alguns jovens cansados do trabalho do dia que aliavam-se àqueles que nada tinham a fazer, para certas discussões de vantagens, às vezes pequenas brigas entre si, quando não unidos em cantarolas apaixonadas pelas poucas ruas da cidade, com alguns motivos de reclamações dos que preferiam dormir cedo.
Não se conheciam viados, talvez um ou dois enrustidos que a família fez bota-fora, pois a cidade não era dada a essas coisas de 'florzinhas', e para isto existia a zona, precária e de mulheres amarguradas, mas suficiente para a iniciação dos solteiros machos e escapulidas de casados mal resolvidos, ou 'zoneiros' juramentados.
O lugarejo estava assim quando, em 1954, chegaram alguns novos japoneses assomando-se aos já existentes desde as primeiras levas migratórias, com seus hortifrutigranjeiros, lavouras de ocasião, plantações de chá e de novidades como as culturas de brotos de feijão e bambu, coisas daqueles japoneses que até cultivaram flores num lugar antes esquecido por Deus, para dois anos depois surgirem os primeiros resultados progressistas da região.
Todavia, o real progresso urbano surgiu apenas em 1958, quando descobriu-se a riqueza do calcário nos solos do município, e uma indústria da capital resolvera instalar-se por ali. Foi uma correria, a cidade logo a fervilhar de gentes para construir prédios da empresa, casas para os novos habitantes, usina elétrica, escolas de secundário (clássico, normal e científico) e técnico em contabilidade. 
Desde então, com população crescente, novas demandas e exigências necessárias, a cidade viu-se invadida por bares, um clube noturno, dois bons mercados (em breve viria um super), pontes de concreto sobre os rios que cortam estradas oficiais, calçamento das ruas centrais, serviço municipal de abastecimento de água e rede de esgoto, uma verdadeira revolução, e ainda era pouco, pois que logo chegariam os doutores da empresa: administradores, advogados, engenheiros, técnicos, pelo menos um médico e equipe auxiliar – para isso já construíam um hospital – além dos novos soldados (policiais), um doutor delegado, e outros profissionais e agentes que, por certo, viriam no rastro e ânsia de fazer vida num lugar que prometia.
Era gosto o povo nativo, desconfiado, criticar os estranhos, como a temê-los ao mesmo tempo em que louvavam o progresso e até sonhavam com a instalação de pelo menos uma Faculdade, a vinda de Juiz e Promotor pra botar lei e ordem nas coisas.
Também chegariam instituições financeiras, Igrejas e quanto mais? 
Foi mais ou menos nessa época de euforia progressista, que o 'Espanhol Guido' vivia às voltas com problemas financeiros, avalista e fiador de seu filho e um cunhado metidos num empreendimento desastroso, que quase o leva à falência para honrar compromissos assumidos. Não perdera a fazenda mas já não ostentava mais a riqueza de outrora, tanto que sua filha temporã, concluído o ginasial, não mais iria para a capital prosseguir estudos, ficaria por ali mesmo, cursar escola normal pela manhã, contabilidade à noite, e depois de formada trabalhar e arrumar um bom casamento com algum graduado da empresa, vontade da moça e dos pais já quase velhos, ficando assim bem distante o sonho de um dia ela ser doutora Médica ou Professora Graduada. 
E assim começa uma história, a partir dessa filha do 'Espanhol', Elisa Martinez de Larosa, que deixou os sonhos de se fazer num centro maior para, em 1961, já formada e com curso de datilografia, empregar-se na Empresa pretendida, como Auxiliar de Escritório; moça bonita, graciosa, de boa família e inteligente, que caiu logo nas graças do Administrador Geral, Dr. Arnaldo Salles, que a promoveu a Secretária, iniciando um romance entre eles que terminaria em casamento três anos depois, 1964, quando a partir de então ela passou a viver apenas e tão somente para o lar.


*Descrições históricas aleatórias

NASCEU-LHES UMA CRIANÇA E SEU NOME FOI ISABEL*

O espanhol Guido Lopez de Larosa estava bastante eufórico ao entrar no Cartório de Registro Civil, seguido de duas testemunhas: 
 “Mi nieta nasció!”. 
O escrevente lhe deu os parabéns, e uma série de perguntas como que a compartilhar da alegria do avô materno: como fora o parto, quando nasceu, se cesariana (já tinham essa novidade de cidade grande) ou normal, qual o sexo, quanto pesou, coisas assim que todos dali já sabiam em se tratando da neta do 'Espanhol', num horrível portunhol naquela velha mania de brasileiro adaptar-se ao estrangeiro por pensar em ajudar e fazer-se melhor entender, quando não puro exibicionismo de mostrar-se poliglota de plantão, antes de compenetrar-se no devido lançamento de registro. 
– Qual nombre de su niêta? senior de Larosa. 
– Mi nieta? Oh! si, se llama Isabel Martinez de Larosa Salles. 
E a recém nascida teve em sua certidão de nascimento o pomposo nome Selhama Isabel Martinez de Larosa Salles, nascida em 1968, naquela mesma antes cidadezinha do Vale da Ribeira, em pleno vigor dos anos de chumbo no país; aliás, seu pai que antes trabalhara como Diretor na empresa de extração de calcário, encontrava-se ausente na ocasião, uns dizem que preso em razão de greve ocorrida dois anos antes e por ele pressupostamente liderada, outros que o Partidão (Partido Comunista Brasileiro) o escondera em algum lugar do Brasil - a esposa acompanhara-o até mais ou menos recente para voltar grávida, não faltando comentários de que Salles, como era conhecido, já se encontrava em Cuba, China, Albânia ou mesmo na União Soviética, com o endurecimento do regime político brasileiro dos generais. 
Dois meses depois, mãe e filha partem ao encontro de Salles que nunca mais voltara à cidade, conclusão tanto vaga considerando os que juram ele jamais haver saído da região, foragido por ali mesmo na fazenda de Guido, até que pode deixar o local em segurança, graças habilidades de um velho político amigo da família, que negociara com militares de patente e governo sua colocação num serviço público do estado, em troca de certas informações, isto é, denúncias de velhos companheiros que ensejavam luta armada no país.
Se Salles era ou não comunista nunca revelou a alguém, todavia, como Diretor de Administração Geral da Empresa, fora tolerante e até simpatizante com um movimento paredista operário, ocorrido em seu trabalho, numa época bastante difícil, quando ao empregado não era dado direito de pensar diferente do patrão ou contrariar o governo; ninguém, no entanto, o viu ser preso embora a polícia do governo sempre agisse às ocultas e em silêncio. 
A família de Elisa, não se pronunciava a esse respeito, não de maneira que viesse satisfizer especulações gerais dos tantos que insistiam ver Arnaldo terrorista famoso, participante ativo de atos subversivos contra o sistema, há tempos na clandestinidade com uso de codinome não menos famoso, mas que ninguém dali sabia; mesmo os mais reservados acreditavam que Arnaldo, uma vez desempregado mudara-se para São Paulo, onde o Sindicato controlado por comunistas, o acolhera de bom grado: 
– “Comunista pode ser o bicho que for, mas não desampara nunca o companheiro quando este está por baixo”, diziam veladamente, pois que até falar podia trazer comprometimentos e cadeia certa no 'chora mas não mama' - uma referência regional ao antigo DOPS. 
Obviamente são inverdades, pois que efetivamente consta Dr. Arnaldo Salles como empregado pelo Escritório Central da Empresa de Mineração (...), para o cargo de Assistente Administrativo em 1958, com apenas vinte e dois anos de idade, formado em Administração de Empresas, num período bastante próspero dos anos dourados do governo JK, e designado em 1960 Diretor Geral naquela cidade do Vale da Ribeira, onde ele seria a própria Empresa que assim ampliava e diversificava empreendimentos. 
Até 1966 Arnaldo exercera com competência e lucros, o cargo maior da Empresa no local, vindo cair no ostracismo ao apoiar, pelo menos mostrou-se tolerante, a greve geral dos trabalhadores num movimento reivindicatório; mais que isso, fora também acusado pelos seus superiores (patrões), de mau gerenciamento e desvio de verbas, culpas nunca efetivamente comprovadas que no entanto levaram-no à demissão, por justa causa, talvez mais em razão de abandono do emprego a que se viu obrigado, com os patrões e a polícia social desejando-o comunista a todo preço, ignorando que ele apenas apoiara os grevistas quando todas ordens superiores e legais determinavam-lhe pronta ação contrária, isto é, demitir os líderes e denuncia-los à polícia, enquanto aos demais, punições com rigores da lei e descontos dos dias parados, ordens que se recusara cumprir. 
Desempregado por justa causa, 'carteira suja', vivendo na clandestinidade, Arnaldo tentou vida em São Paulo conseguindo poucos trabalhos transitórios, sem carteira assinada, e nem podia, vindo experimentar uma difícil situação de vida, a necessidade bater-lhe mais forte às portas, casamento em crise numa incompatibilidade circunstancial proporcionada pela mesma crise que afetara o casal, ou seja, a econômica, não parecendo que a polícia o desejasse preso, embora ele pudesse pensar o contrário. 
Fracassado, Arnaldo totalmente entregue a bebida, tornou-se violento e metido a constantes crises de ciúmes doentios em relação a mulher, para logo destruir um lar antes tão próspero e feliz. 
Elisa consciente ante agravamento da situação, resolvera por empregar-se numa tecelagem, com isso a desafiar todo machismo do marido - trabalhara antes onde Arnaldo fora o chefe, até conhece-lo e com ele se casar, portanto trabalho não lhe causava receios, além da necessidade famélica premente, quando Arnaldo não tinha mais condições de sustentação do lar. Não foi feliz em sua empreitada, conseguira sim vencer resistências do marido às custas de sacrifícios, mas engravidara-se já no segundo mês de serviço, demitida tão logo a notícia chegara aos ouvidos do Chefe de Produção; custava-lhe acreditar, quase sete anos de casada e desejar gravidez que não viera quando estavam bem, mesmo às custas de tantos tratamentos, eis que esta lhe surge agora num momento inoportuno, desabando sobre ela um verdadeiro inferno astral doméstico, numa continuidade de brigas e pancadarias a ameaçar a integridade do feto. 
Com receios de perder a criança Elisa retornou à família, quebrando seu juramento de jamais fazer isso desde que partira com Arnaldo, a acreditar na inocência dele contra tudo e todos, até mesmo os seus; foi de bom grado recebida pelo pai que preferia desonra de uma filha mãe sem marido, que vê-la torturada pela estupidez descabida de um homem enciumado, bêbado e irresponsável, esta ultima qualidade já cantada e decantada desde que o genro deixara o serviço, com abandono de cargo a motivar justa causa, para não ser preso como comunista e ladrão.
Quase ao mesmo tempo, avisada por Elisa através de uma carta onde pedia segredo de identificação, a família Salles pode enfim localizar Arnaldo, depois de quase três anos sem notícias; daí levado para o interior, conseguiram para ele, através de um líder político do local (deputado estadual pelo partido situacionista), emprega-lo na Estrada de Ferro, primeiro como Encarregado do Setor de Obras e Manutenção no município, depois a Chefe de Estação com a aposentadoria do titular. Comenta-se que o Deputado conseguira limpar a ficha de Arnaldo, em troca de favores políticos a favor da Empresa, bênçãos do Diretor do DOPS e de um General de Divisão, Chefe do SNI - situação que jamais poderá alguém checar com precisão, nem mesmo se Arnaldo tinha realmente folha corrida suspeita ou alguma ordem de prisão decretada. 
Quando nasceu Selhama, Arnaldo mostrava-se novo homem, tornara-se evangélico, não bebia mais, o salário era razoável e, na condição de casado, teria casa da Companhia para morar, sem despesas de aluguel, além de outras vantagens. Negociações rápidas entre famílias fizeram com que ele e a mulher se reconciliassem, pois não seria bom para um homem investido num cargo de importância permanecer só, como também não seria nada interessante para Elisa continuar sozinha com uma filha para criar. 
Todos queriam a reaproximação daqueles que a crise ousou separar um dia, e assim perdoando-se um ao outro, reiniciaram vida em comum, deixando o passado sepulto para sempre. 
Nunca mais Arnaldo agrediu Elisa, nunca mais Elisa foi embora, porém, nada disso importa, a personagem é Selhama, e a cidade onde fora morar já há muito era habitada por parentes do pai.
Até a idade escolar, Selhama era chamada de Isabel, Belinha para a família, somente a descobrir seu verdadeiro nome na escola, e dele gostar tanto quanto da história da sua origem, que doravante tornou-se Selhama, não admitindo que alguém mais a chamasse diferente; e assim ela cresceu como Selhama, em graça, beleza e esplendor, dona de invejável inteligência. 
Exatamente nessa mesma localidade foi que a pequena Selhama viria apresentar, muito logo, estranhos fenômenos de paranormalidades ou de mediunismo, de maneira amena a princípio para depois tornar-se extremado a ponto de causar espanto e preocupações em todos que a conheceram, além de uma vivência de amor tão particular quanto absurda e incompreensível.


*Capítulo extraído de trechos do diário de Selhama

ESTRANHA NECESSIDADE DE CONSULTA MÉDICA*

Jovem, 20 anos em 1988, 3º. ano concluído do Curso de Psicologia e já matriculada para o termo seguinte, Selhama era uma pessoa aparentemente normal, não se observando nela qualquer indício de neuroses ou enfermidades mentais, e seria sério risco de diagnóstico médico ou psicanalítico classifica-la como elemento fronteiriço de personalidade psicopática.
Morena bonita sem pedantismo e produção, inteligente sem arrogância, educada sem fazer-se submissa, jamais valera-se de subterfúgios e artimanhas para satisfazer interesses mesquinhos ou fugir de suas realidades, fosse pelas mentiras ou simulações, e assim era uma pessoa tipo feliz, em pleno gozo de suas faculdades física e mental, apta o bastante para quaisquer atividades a que se propusesse exercer, profissionalmente ou por prazer; um médico não hesitaria assinar-lhe laudo favorável de sanidade. 
Apesar de todas suas características apontar para um padrão ideal psico-social, a jovem bem sabia encontrar-se distante daquilo que se concebe como normalidade, ciente existir entre ela e demais pessoas, certas valorizações de atributos da paranormalidade que ela seria possuidora, ao descobrir-se desde criança capaz de produzir e receber estados ditos fenomênicos, sem fugir desta sua realidade e antes sim vive-la intensamente e a interessar-se pelos enigmas da vida, da morte e dos periféricos outros tantos que, direta ou indiretamente, vinculam-se àqueles mistérios. 
Selhama tão logo compreendera suas diferenças em relação às pessoas comuns, atirou-se às perguntas e respostas acerca de causas e origens de suas capacidades, desde um misticismo às religiões, das ciências parapsicológicas à psicologia clínica; antes, por volta de seus quatorze anos, fora levada pela mãe aos médicos para consultas e exames - clinica geral e especialidades como Neurologia, Psiquiatria e Psicologia, sem jamais um veredicto preciso quanto possíveis anormalidades de ordens orgânica ou psíquica. 
Em 1985, depois de submeter-se a teste vocacional, optou por estudar Psicologia, aprovada em primeiro lugar no vestibular daquele ano; ingressa no curso escolhido, iniciou tratamento psicoterápico de ajuda com profissional da Faculdade, abandonando o que realizava na Unidade de Saúde Mental de sua cidade, vindo com isso submeter-se a experimentos com equipe especializada, dois meses depois, quando houve constatada evidências de paranormalidade, inicialmente como autoconhecimento quanto aos limites das potencialidades inerentes, para assim desenvolver equilíbrio mais adequado de vida, que não a fizesse perder-se pelos caminhos da própria existencialidade, sob penas de viver perigosamente nos limites de uma loucura voluntária. 
Alegre, comunicativa, de raciocínio rápido e coordenado para respostas precisas, todos que lhe eram próximos julgavam conhece-la em profundidade, sem ao menos imaginar que ela pudesse, de alguma forma, esconder segredos ou viver alguma outra personalidade diferente da que apresentava. Selhama, no entanto tinha e vivia segredo inconfessável, desconhecido por amigos, pais e mesmo seus mestres e experimentadores; há anos seis aproximadamente mantinha romance com um rapaz, quatro anos mais velho, tão bem escondido e vivido entre os dois, que ninguém ao menos suspeitava.
Evidente que nada errado, senão a ocultação desse amor, em se tratando de pessoa emancipada como ela; talvez quando púbere até houvesse algum motivo familiar que justificasse tal ato, mas não agora na sua idade e bastante dona de seus caminhos. Também nada demais que ela vivesse esse amor às ocultas, quem sabe por tratar-se de homem casado ou que por uma razão ou outra necessitasse, provisoriamente, de anonimato até que se pudesse revelar, nada disso importando senão o tempo decorrido desse romance, seis anos, quando ela teria apenas quatorze e ele dezoito, idade um tanto precoce para um jovem estar comprometido a uma outra mulher, embora não impossível. 
Eram segredos deles, sabendo, todavia, não ser ele nenhum preso ou perseguido político, a anistia já havia sido concedida a todos aqueles que de uma forma ou outra se encontrassem naquelas situações. 
Tratar-se-ia de algum condenado por crime hediondo? Certamente não, pelo menos que estivesse encarcerado, pois a uma menor não era dado o direito de visitar detento e direito de visita íntima, sabendo-se que ela ainda recente entregara-se ao homem amado, portanto distante de uma cela de presídio. 
Algum fugitivo da justiça? Talvez, porém são conjecturas onde não é dado, ainda, direito de invadir privacidade de Selhama, apenas respeita-la. 
A única certeza existente é que a jovem tinha uma pessoa em sua vida, com a qual vinha mantendo ultimamente relacionamentos sexuais, mais ou menos frequentes desde que deixara de ser virgem, ela sempre a se precaver de gravidez indesejável ou inoportuna, com uso de anticoncepcionais. 
Outro fator a ser considerado, é que Selhama vinha lutando com todas suas forças físicas, mentais e parapsíquicas, nos últimos meses, para alguma modificação de situações, ou seja, de fazer público um amor secreto, por já não suportar sabe-lo impossível da maneira que estava, transformado em pesadelo terrível, ciente que não suportaria continuar por muito mais tempo sem torna-lo conhecido, já a afetar-lhe a razão e dar causas de esgotamento físico/mental nunca antes experimentado; aliavam-se às circunstâncias certas dúvidas suas quanto a esse mesmo relacionamento, as evidências de doença psicossomática que não tardaria exteriorizar-se, ou que alguma loucura viesse domina-la. 
Resolveu consultar um médico, tirar de sua cabeça 'uns bichos grilos' – conforme costumava dizer, realizar ao menos um exame laboratorial que pudesse eliminar dúvidas, para não vir despertar tarde demais diante de alguma verdade mais cruel; o amor, às custas mantido em total segredo, já não lhe fazia bem, mas não podia chegar diante do clínico geral e simplesmente lhe dizer: – "Tó mande analisar isso". 
Os médicos da cidade eram todos conhecidos, à exceção de um, Dr. Mateus, recentemente estabelecido no local; aí dois problemas: médicos conhecidos e um totalmente estranho onde, se não podia abrir-se com aqueles nem com este tampouco e pelas mesmas razões, confiabilidade de seu segredo e julgamento precipitado de alienação mental. 
O tempo, todavia, urgia, sua situação piorava dia a dia, cada encontro a transformar-se em mais pesadelos e dúvidas, que precisava de pronto livrar-se; Selhama poderia até estar no caminho certo naquilo que havia proposto em relação ao homem amado, mas necessitava urgente saber se o que se passava com ela era efetivamente real, ou apenas algum subproduto de sua imaginação criativa. 
Optou pelo doutor estranho, porém como proceder? – “Doutor, eu quero...” ou, “Estou sentindo isso e aquilo” – puras fantasias que seriam descobertas. O médico certamente a examinaria e ela não tinha problema algum para apresentar. 
Estudou uma estratégia: convenceria a mãe acompanha-la ao doutor, precede-la numa consulta e relatar ao médico sobre a sua paranormalidade, o que deixaria o profissional receptivo mentalmente para qualquer absurdo posterior que viesse de uma 'maluquinha', e assim pronto a qualquer solicitação a rogo, para livrar-se logo daquilo, sem muitas mais perguntas, com sugestão ou encaminhamento para algum psiquiatra, que ela certamente não iria. 
E assim chegou um dia o esperado momento da consulta médica, o dia que seu segredo certamente seria desvendado e seu amor posto a descoberto, pois que não havia nenhuma outra maneira de ser.

*Do diário de Selhama.

UMA CLIENTE NADA HABITUAL*

A placa indicativa não deixava dúvidas tratar-se ali de um consultório médico: Dr. Z. Berlanga Mateus, o Dr. Mateus, como conhecido o profissional de saúde, moço novo e bem afeiçoado, que chegara ainda recente à cidade e já a desfrutar prestígio imenso, doutor 'prá lá de bom', cirurgião bem sucedido que ainda não perdera nenhum paciente; solteiro – dizia-se noivo, a provocar certo arrepio no mulherio e moçoilas casadoiras da região.
Os médicos mais antigos não viam Mateus assim com bons olhos: "este doutorzinho quer fazer a fama e depois (...); ele faz concorrência desleal; não sei não mas aquela cirurgia não me pareceu assim tão necessária; esse cara vai se estourar ou morrer de fome; porque ele não se emprega no SUDS? (atual SUS)".
Mateus não ignorava o que os colegas diziam dele, veladamente; não era tolo e bem sabia que, uma vez estabelecido na cidade seus clientes sairiam de alguém, e se enchiam-lhe as portas sem dúvidas outros consultórios estavam às moscas, vivendo os velhos mercenários da 'máfia de branco' - Mateus assim se referia aos médicos seus colegas concorrentes, às custas de antigos e tradicionais clientes, endinheirados evidentemente.
Não era nenhum mercenário da profissão e sim um bom vocacionado que amava a medicina mas não gostava de médicos arrogantes que se julgavam superiores a tudo e a todos, como senhores da vida e da morte. Voz corrente na cidade, Mateus fazia sempre bons acordos com seus clientes pobres e às vezes sequer cobrava pelos serviços, e que não se credenciara a nenhuma Instituição de Saúde do Governo simplesmente porque não acreditava no sistema, preferindo apenas fazer sua obrigação social posto que estudara em Escola Pública.
Nascido em 1960, na região de Campinas, S.P., seu pai era um religioso adepto ao maniqueísmo e se considerava espiritualista, embora na verdade um homem perdido entre fundamentos de religiosidades diversas do misticismo oriental, numa miscelânea bastante incompreensível de tantas idéias que não conseguia expressa-las convincente ao próximo, nem à própria família, tornando-se um incompreendido em seu próprio universo.
O homem desde cedo propusera-se restaurador das idéias de Maniqueu, e de tal forma gostava do Masdeísmo que veio dar ao seu único descendente o terrível nome Zoroastro (o mítico homem-deus persa, fundador daquela religião, da qual valera-se Maniqueu para algumas de suas idéias misturadas ao cristianismo, pelas quais inclusive veio a ser morto); para o pobre místico, a ultima religião verdadeira e correta havia sido a dos Cátaros, combatidos, perseguidos e mortos pelo catolicismo, e Marcion (teólogo do 1º. Século) seria o evangelista maior.
O pai do menino Zoroastro morreu precoce, sem conseguir levar adiante sua mensagem de fé. A mãe casou-se novamente, em segunda núpcias, para então o destino do garoto 'Zoró' sofrer profunda transformação: do Teólogo pretendido pelo pai foi estudar Ciências Médicas, sem livrar-se do nome que detestava, embora conhecido por Mateus; já no Cursinho Pré-Vestibular concomitante com o Colegial, ganhara o apelido ZBM - iniciais do nome e sobrenomes com pejorativo significado de 'Zona do Baixo Meretrício', que aliás preferia que ser chamado de Zoroastro ou simplesmente 'Zoró'.
Formado médico em 1986, ateu convicto, Mateus clinicou primeiro em sua cidade natal antes de escolher, no início de 1988, a mesma cidade em que Selhama morava, para montar consultório, sem ao menos imaginar que o acaso o colocaria justamente no caminho da então jovem sensitiva, para juntos viverem um dos maiores e estranhos dramas de amor e espiritualidade que a cidade conhecera.
E tudo começou na tarde daquele dia em que Elisa, mãe de Selhama, entrou em seu consultório para conversas preliminares com o doutor. A paciente seria sua filha, contudo antecedera-a a fim de dar ao médico informações do que efetivamente ocorria com sua menina, que por certo lhe omitiria detalhes ou motivos da consulta. 
Mateus já se acostumara com isto numa cidade típica do interior, onde certas coisas as jovens temiam ou não gostavam de falar, transas, menstruação, gravidez indesejada e escondida dos pais, mas que a mãe percebera, assuntos assim dos quais até sorria.
Elisa no entanto não lhe trazia nada disto, mas falava detalhadamente e sem parar de outras certas causas que Mateus jamais imaginara algum dia ouvisse em seu consultório; não interrompendo o que lhe dizia a mulher, vez ou outra balançava a cabeça pausadamente, como a concordar ou compreender aquilo tudo, bastante atento a todos mínimos detalhes como se nada quisesse perder daquela história, fantástica, de uma garota paranormal que convivia com certos estados fenomênicos psicológicos e de efeitos físicos, muito mais adequados não a um parapsicólogo e muito menos a algum religioso  - duvidava desses profissionais mercadores da fé e vendedores de ilusões, mas sim a um bom psiquiatra e depois, talvez psicoterapia de acompanhamento.
A mãe quase desesperada, percebia-se isto, continuava as arengas que pacientemente Mateus ouvia; se ele queria logo terminar tudo aquilo, não dava a mínima impressão, apenas a fazer algumas anotações, assim parecia, numa folha de receituário, talvez até rabiscando coisas à toa, desenhos infantis tão comuns a quem desinteressado de algum assunto que, por educação, não pode demonstra-lo. A verdade, porém era certa e Mateus sabia disto: ouvia sim a mulher mas seus pensamentos já estavam um tanto distantes dali, com vivas lembranças de um velho amigo dos tempos de cursinho e que juntos cursaram faculdade.
– Porque lembrava-se de Nivaldo?
Oras, porque Nivaldo gostava desses assuntos, dos chamados casos paranormais. Onde estaria, naquele momento, o amigo Nivaldo? Sabia-o em sua própria e distante cidade, vez ou outra conversavam por telefone, e ainda dois dias antes se falaram demoradamente à noite. Vida engraçada, eram tão unidos antes e agora ausentes, embora amigos como sempre foram, Nivaldo um filósofo, às vezes roubador de frases poéticas: – "distância é um lugar que não existe" dissera-lhe quando optaram por cidades diferentes, por não desejarem concorrências entre si.
– Mateus, família acontece, amigo a gente escolhe - e aí Nivaldo parecia original, por isso não eram irmãos, jamais se trataram assim, pois eram amigos, amigos de verdade, amigos para valer, com direitos a brigas sem ressentimentos.
Pensamentos ágeis, num instante Mateus lembrou-se de Marcinha, lá no quarto de pensão onde ele e Nivaldo dividiam despesas; naquela noite ela dera para os dois – "ôpa espera lá! um de cada vez, bem entendido, enquanto o outro estudava" - recordou-se.
Chutou para longe os pensamentos, Marcinha casada, médica, mas e Nivaldo, que diabos estaria a fazer agora? Formado, Nivaldo montara seu consultório para as bandas de Neves, no estado das Minas Gerais, onde médico ainda fazia falta, e lá foi ele cheio de sonhos e ilusões de se fazer na vida; reencontraram-se um ano depois, num desses congressos médicos numa cidade estação de águas, que tanto entusiasmavam recém formados.
– Mateus, minha primeira cliente não se mostrava nada grave, algumas pílulas - gostava de falar assim, e tudo resolvido, não voltou mais; um dia, meses depois, encontrei o marido dela na Agência dos Correios, por um dos acasos da vida, e eufórico perguntei-lhe pela patroa: – "ih! Seo doutô, coitadinha passô dessa para a mió". Vendo meu abatimento natural o caboclo acudiu de pronto: – "fique triste não seo dotô, pois com os remédinho que o sinhô deu, ela morreu bem miózinha viu?". Largarei da clinica geral para me especializar em Psiquiatria, em Belzonte - como ele se referia a Belo Horizonte, e vou deixar o interior mineiro muito logo.
– "Nivaldo bem merecia isto" - pensou Mateus desejando rir do amigo ausente, mas não podia; fez esforço tremendo para concentrar-se novamente em Dona Elisa, conversa já chegando ao fim, ela a sair com uns remedinhos 'amostra grátis', de uma consulta filada aproveitando ocasião: – "ah! Doutor e como eu estou?, umas dorzinha aqui outras alí".
– "Porra! se a filha me sair de encomenda como a mãe, tô ferrado patrioticamente, de verde e amarelo" - confessou para si em segredo, de maneira como Nivaldo sempre gostava de falar.
Quando a secretária trouxe-lhe a ficha da garota que logo entraria por aquela porta semi-aberta, Mateus continuava lembrar-se de Nivaldo nos tempos de sexto-anistas, justamente num velório em que se fizeram presentes - estavam de férias, lá no interior onde moravam os pais do amigo, cidadezinha que de tão pacata resolveram 'curtir velório'. Riu na alma ao recordar o colega com algumas doses a mais de conhaque, em esforços para manter equilíbrio, tocar a testa do falecido, benzer-se todo numa simulada oração, assim julgava, para em seguida dirigir pêsames à viúva: 
– Eu estimava muito o finado - Nivaldo parecia reverente - e se mal lhe pergunto dona, do que mesmo morreu o falecido? 
A desolada senhora respondeu que a causa fora pneumonia, e de pronto questionada pelo inconveniente interlocutor se a tal pneumonia er aa simples ou dupla, para receber informação de que era do tipo simples, e Nivaldo então emendar: 
– "Ainda bem dona, ainda bem, porque o foda mesmo é a dupla!"
Correu rapidamente os olhos na ficha de sua próxima cliente, como que a interessar-se pelos dados apanhados pela secretária, mas nada conseguia ler, os diabos das lembranças ainda lá no abençoado do velório, Nivaldo bastante popular – até era chamado de doutorzinho, numa rodada final de cachaça para espantar o frio do mês de julho, de repente tomou por empréstimo o quepe de um policial, correu um a um dos presentes para ajutório e mandar um moleque buscar pinga no boteco mais próximo, e todos colaboraram com tão oportuna iniciativa, até a viúva para depositar seu óbulo: 
– "Não, não dona, a senhora não, por favor... a senhora já colaborou com o 'de cujus', certo?
Nivaldo era mesmo assim, espirituoso, e todos o adoravam.
Entrou a cliente, Mateus realinhou idéias, surpreso ao ver diante de si não uma garota raquítica que imaginava ter uns quatorze para quinze anos, se tanto, pois ali se apresentava uma jovem de vinte anos, tão linda, tão cheia de vida que em absoluto poderia ser aquela ranheta de quem a pouco uma mãe aflita se referia.
Quis certificar-se e com atenção releu a ficha que a secretária lhe entregara: 
– Selhama Isabel Martinez de Larosa Salles, é isso? - Achara curioso o nome ou prenome fosse o que fosse, e somente agora o reparara - por favor, sente-se.
Novamente deparou com os olhos naquele nome Selhama, e pronto a dizer alguma coisa a respeito – "que nome hein!", com intenções de abrir conversa mais a vontade, quando a jovem interrompeu-o:
– É doutor, também seu nome também não é lá nada engraçado, não é mesmo? - e riu educadamente com certo ar zombeteiro. 
Mateus foi pego de chofre e novamente seus pensamentos voaram em direção a Nivaldo:   estavam residentes e dormiam ou descansavam em um adendo ao hospital escola, com outros colegas, no velho alojamento que carinhosamente chamavam de 'chiqueirinho', aguardando hora para o chamado de serviço, e nisto entrara um auxiliar de enfermagem, novato assim parecia, com voz delicada a chamar pelo Doutor Zoroastro, nome pronunciado com alguma dificuldade. Nivaldo não perdera tempo: – "Doutor Zoroastro do que meu filho!". Preocupado por não saber, o jovem auxiliar se desculpou e foi até a distante portaria, andares abaixo, certificar-se do sobrenome do doutor, enquanto no alojamento todos riam, pois onde caberiam dois Zoroastro num mesmo local, se até em todo mundo ocidental já não seria nada fácil? Retornou o jovem para, empertigado declarar Doutor Zoroastro Berlanga Mateus, e de novo Nivaldo: – "ah! é o Z.B.M porra!". Nivaldo adorava chama-lo assim.
Mateus voltou a ser o profissional compenetrado:
– Muito bem Selhama, vamos lá ... seu nome é mesmo?
E a jovem lhe satisfez a curiosidade explicando a razão do nome pela maldita pronuncia espanhola do avô materno, 'se llama', que o imbecil escrevente entendeu como nome Selhama; ambos riram simpaticamente do caso, porém ele recusou-se explicar a origem do seu, aliás nem tinha razão alguma para isso e Selhama muito menos lhe perguntara, tão somente dissera que não era lá nada engraçado.
Muito a vontade Selhama explicou com naturalidade ser apenas uma paranormal, com fenômenos de percepções extrassensoriais, sem tendências religiosas, uma pessoa clinica e psicologicamente normal, desde a infância capacitada em ver, ouvir e sentir o que outras pessoas não podiam, a exemplo de seus pais que a princípio confundiam aqueles atributos, a extrapolarem fantasias da infância, como possessões demoníacas, embora lhe dessem apoio e franqueza de total diálogo; todavia fora exorcizada e teve seus pretensos demônios expulsos por evangélicos, sem êxitos, levando-a contudo a uma adaptação melhor e mais bem compreendida de seus dons inatos e aquisições de outros, quando então aos olhos da uma seita cristã seus espíritos malignos se tornaram anjos de Deus; que embora pessoa capaz e de boa convivência com seus dons, para satisfações à família passara por psiquiatria, neurologia e psicologia, que jamais tiveram aceitas essa sua condição de paranormalidade, onde médicos e psicólogos, da Saúde Mental, insistiam ver nela desvio de comportamento ou alguma forma de desagregação personal.
Porque viera até o doutor? 
Nenhuma explicação por parte dela, talvez nem mesmo tivesse motivo algum, deixando Mateus numa posição incômoda – "como alguém paga consulta para relatar fantasias e nenhum mal, sabendo estar diante de um clínico geral e não um especialista?"
Mateus não acreditou absolutamente em nada das exposições da jovem ou da mãe, julgando-as fanáticas religiosas senão doidivanas quaisquer; quis perguntar objetivos reais pela procura, todavia, não sabia explicar, não era isso que a jovem esperava dele, entendendo-a querer alguma demora a mais naquela consulta, quem sabe para satisfação a familiares ou da mãe; e iria satisfaze-la, afinal ela pagara e não seria nada justo dispensa-la tão rapidamente, sem ao menos saber efetivamente um pouco mais a respeito do que a trouxera até ele.
A demonstrar interesses pelas fantasias até então apresentadas, Mateus optou ouvir mais e deixar a jovem falar de si, explicar sobre o que seriam os dons ou aquelas capacidades, estória impressionante de uma jovem que, aparentemente normal - a própria se dizia assim e ele nem a consultara ainda, que ali chegara apenas ou talvez pela vontade imperativa dos pais, que insistiam ver nela algum mal orgânico para loucuras.
Dr. Mateus concordava – tinha de examina-la evidentemente e solicitar exames complementares e/ou opiniões de especialistas, pois aparentemente ela nada tinha de anormal senão aquelas esquisitices de ouvir vozes, enxergar mortos em suas visões, receber certas premonições de casos inevitáveis e geralmente fatídicos, além de acreditar-se capaz de conversar com falecidos, fabricar fantasmas e dar-lhes formas como se estivessem vivos, mover objetos e outras citações de grandeza e poder da mente, algo fantástico para ele Mateus, descrente da veracidade daquilo tudo – "coisas de espiritistas malucos".
Na opinião de médico, Mateus entendia ali uma jovem atirada para os lados das fantasias e religiosidades, de mente criativa e, o pior, que acreditava real em seus estados psíquicos ou fenomênicos, conforme ela se referia; um quadro bastante sugestivo para o amigo Nivaldo.
Sorriu ter novamente o amigo tão próximo ou dentro de si, lembranças da vez quando ainda estudantes, num fim de semana, foram a um Terreiro de Culto Afro-brasileiro - achava que era mais ou menos isso, onde alguém, após faniquitos manifestara-se com tipo realmente diferente, de nome Capa, não lembrando se era Preta ou Negra, aliás nem sabia direito porque acompanhara o amigo até aquele lugar, enfiado numa das vilas mais pobres de São Carlos.
– "Mas porque tanto pensar em Nivaldo?" - acreditava ser em função de Selhama e seus problemas parapsíquicos, um caso que o amigo adoraria ter em mãos; mais tarde ligaria para ele e dariam boas gargalhadas.
Alguma desagregação personal, desajustamento familiar, social ou mesmo psíquico,  que diabos teria Selhama?”
Não tinha mínima ideia daquilo que realmente se passava com a cliente e, pelo relatado até ali, nada a medicar senão algum controlado que ela não tardaria em pedir – 'o famoso recorte de nome ou cópia de receituário'. Quis perguntar de imediato os objetivos da consulta ou que medicamento ela desejava; não era dado a ratificações de receituários anteriores de outros profissionais, muito menos de sugerir certas drogas não referentes à sua especialidade, mas sem dúvidas tratava-se, no caso, de paciente viciada, sem doença senão alguma imaginada, por certo pessoa já corrida de outros médicos.
Teve pena da jovem, mulher sem personalidade a satisfazer vontades da mãe ou quem quer que seja, para consultar-se, ou antes, vir acompanhada a um consultório médico, afinal já tinha seus vinte anos de idade, mais um para se formar – "e veja no que meu Deus, em Psicologia e ainda os caras lhe fazem experimentos dessas doidices!"
Dar-lhe-ia o medicamento até de bom grado, desde que não contrariasse sua opinião de médico, bastando tão somente ela declinar o nome do preferido ou aquele em uso recente, afinal 'por qual razão aquela lenga lenga toda senão para isso? A mãe trouxera a filha até o consultório e a antecedera para falar das mesmas esquisitices que novamente ouvia
Pensamentos rápidos e confusos, quando Selhama interrompeu-o: 
– "Doutor, talvez minha mãe tenha recebido procuração de Santo Antônio ou alguma sugestão dele para me trazer aqui" - abaixou o tom de voz como se desejasse confiar algum segredo que ninguém mais pudesse ouvir – "... e olha, não arrependi nadinha" - sorriu maliciosamente a piscar um olho para o surpreso doutor. 
– "Será que ela leu meu pensamento?" - pensou para acreditar que não – "que besteira a minha!". 
Sem saber se por curiosidade ou desejo de estender conversa, pediu à cliente que lhe confiasse como sentia as aproximações ou aquelas espécies de contatos.
– "Taí uma coisa que não sei doutor, elas simplesmente me acontecem..."
– Acontecem como? - queria saber.
– Assim oh! - e Selhama baixou a cabeça colocando-a entre as mãos, para suspirar forte e em seguida sustar a respiração por instantes – "Assim doutor."
Mateus estava em guarda, não perdendo um só detalhe, e decepcionou-se com o espetáculo apresentado.
– Assim como Selhama?
A jovem levantou-se para despedidas, dando por encerrada a consulta – "Zangara-se com ele pela observação?" 
-Muito obrigada doutor, o senhor é um bom profissional, sem dúvidas; marcarei retorno com sua secretária, certo? Ah! - e bastante séria - o amigo médico em quem o senhor esteve pensando tanto até instantes atrás, acaba de falecer, vítima de um acidente. Sinto muito, até logo doutor Mateus" - e saiu apressada, como se arrependida com o que acabara de dizer.
Mateus quis manter-se indiferente, não valorizar a mensagem: – "Onde já se viu tamanha estupidez? Não é atoa que dizem que somente faz psicologia quem ainda não se encontrou na vida, e essa 'zinha', pelo jeito, está bem perdida e fodida até" - e quase mostrou a língua e fez caretas às costas da cliente, somente não o fazendo por sentir o olhar penetrante e observador da secretaria que entrara na sala: 
– Oi, pode mandar o próximo - voz um tanto vacilante, para em seguida resmungar – "Mas que 'sujeitinha' mais presunçosa e atrevida!; merda, até o que médico tem que aguentar?"
– O que o senhor disse doutor?
– Nada não - estava confuso - desculpe, mande entrar o próximo.
(...).
À noite chegou o recado que Dr. Mateus jamais imaginara ouvir: horas antes Nivaldo falecera, vítima de acidente automobilístico.


*O recado da morte - do médico, ex-diretor de serviço onde trabalhava o autor, amigo e confidente de Zoroastro.



O DESVENDAR MISTÉRIOS*

O médico Mateus passou exatos dez dias fora da cidade, período em que, com a mesma intensidade de sofrimento pela perda do amigo Nivaldo, focalizava questionamentos de como Selhama tivera conhecimentos antecipados, ou que fossem simultâneos, do acidente fatal; encontrara justificativas para estar a pensar no amigo com intensidade naquele dia: o quadro da filha apresentado por Elisa levara-o às recordações passadas, mais insistentes ainda na presença da jovem. Admitia até que ela, telepata declarada, lera sua tela mental – já ouvira falar de pessoas com tais capacidades – somente não a imaginar ele próprio defronta-las algum dia; todavia daí à revelação do acidente, que sequer imaginava, havia considerável distância e, na sua opinião, impossível ser declarada.
Conhecera durante o velório um médico psiquiatra, amigo de Nivaldo, a quem o velho companheiro comentara a seu respeito, sempre boas referências e ótimas lembranças; não demorou Mateus expor ao recém conhecido, tinha necessidade disso, todo acontecido em seu consultório, através de Selhama, provavelmente no exato instante do acidente, ao que observou o psiquiatra:  – "existem pessoas com capacidades de revelar ou de provocar acontecimentos, a  valer-se de ponte mental estabelecida entre duas pessoas que se gostam". 
Mateus recebeu verdadeira aula sobre assuntos de parapsicologia, espiritismo e de certos estados projeciológicos, a guardar para si tudo que ouvia para, se necessário, e essa era sua intenção, discuti-los com Selhama.
O psiquiatra, com formação em Parapsicologia Científica, dissera isso, fez profundos informes a respeito de personalidades múltiplas numa mesma pessoa: 
– “Atente bem o amigo nessa sua cliente, provavelmente possuidora de personalidades alternantes, pelo menos uma que seja, originárias da dissociação da personalidade original ou integral; se uma mística quase certo referir entidades espirituais como causa primária, de qualquer maneira, uma forma de energia a se valer de estruturas próprias da personalidade do sensitivo e surgir, assim, como uma espécie de alteração psíquica a firmar-se também como personalidade viva, porém independente e distinta, as vezes altamente receptiva. Algumas personalidades podem ser projeciológicas e com certas capacidades, além das captações, atuações à distância de maneiras desconhecidas e nem sempre idênticas, de provocar quadros simultâneos ou futurísticos aos quais chamo de visitação incorpórea, não que eu seja espírita religioso, todavia assim denomino por ser esta uma energia desconhecida, mas que existe e que surge de repente, com ações das mais absurdas e estonteantes possíveis”. 
Para Mateus algo extraordinário acontecera em seu consultório, muito além de telepatia ou leitura de tela mental, impossível negar a despeito de sua incredulidade, embasada na razão lógica do saber; quis admitir que Nivaldo, no exato do acidente, passara-lhe o ocorrido como ultimo pensamento talvez,  que ele jamais viria decodificar por não ser dotado ou experiente no assunto, porém, a coincidência de se encontrar no momento uma possível paranormal, esta não teve dificuldades em captar e revelar o acontecido; afastou a idéia, pois admiti-la seria considerar-se radar psicológico ou, sabe-se lá, sensitivo caracterizado em instante de flexibilização mental, ele agnóstico juramentado  quanto a possibilidades paranormais e exatamente de si.
Desorientado, não bastando esclarecimentos do psiquiatra, sem resposta que firmasse elucidação do fenômeno que vivera e participara, direta ou indiretamente, procurou Selhama, sem aguarda-la quanto possível retorno,  para dirimir suas dúvidas e de vez resolver o complexo mistério em que se metera, já transformado em aflição de espírito.
Preparado para a vida, resoluto o bastante para não deixar-se entregar facilmente às substituições de seus conceitos sedimentados num materialismo científico, dos anos de estudos e das concepções formadas de crenças que fora educado, Mateus sentia derruídas suas grandes verdades firmadas, agora todas emaranhadas nas difíceis tramas de tantas dúvidas; para ele era e estava ainda extremamente difícil aceitar possibilidades de comunicações de um espírito, pensamento que fosse e por mais ligações de sentimentalismos ou querências tivesse, a sobrepor leis físicas em forma de algum aviso.
Palavras certas e bem estudadas, quando na presença da jovem não era mais o homem tranquilo que precisava ser, transformado num ser impotente, arrasado e com profundo reconhecimento quanto sua incapacidade diante do mistério julgado, já de antemão, incompreensível: a revelação não fora ato apenas de coincidência, sabia disso, e mostrava-se longe de algum atributo especificamente mental, seu, dela ou de ambos, não importava.
Arrependera-se tarde demais, ciente que aquela conversa não o levaria a ponto algum, o mistério continuaria igual senão ainda mais intrincado, todavia não já podia recuar:
– Você soube, aconteceu?
Não era nada do que pretendia dizer para iniciar algum tipo de diálogo que viesse resolver seus questionamentos; sentiu-se estúpido e entregue a total submissão diante de uma pessoa que mal conhecia, paranoica talvez mística, que poderia valer-se da situação para maneja-lo a bel prazer, ou a arrogar-se de dons diante de sua passividade demonstrada; pretendia era dizer pusilânime:  – “explica-me o que se passou em meu consultório, naquela consulta, que viesse desenvolver determinado quadro efetivamente acontecido, para juntos podermos assinalar rumos e conclusões de juízo lógico sobre um mal que a perturba certamente”, afinal, porque motivo se dirigira a ele naquele fatídico dia senão para busca de processo de cura de algum mal? 
Por certo, assim ele raciocinava, Selhama estaria aflita à procura de livrar-se de alguma situação  psicológica, física ou psicossomática que a afligia, ou até mesmo, sabia-a estudante do ultimo ano de Psicologia, se considerasse vítima de um quadro patológico advindo de deformação química cerebral desconhecida, afetada por germens patogênicos que lhe favoreciam quadros de delírios consequentes de superexcitações de células nervosas ou cerebrais.
Mas a que exatamente levaria isto para algum possível favorecimento de manifestações notoriamente extrafísicas? Uma coisa apenas Mateus tinha certeza: Selhama não fora ao seu consultório, com exclusividade de lhe revelar acontecimentos.
Selhama diante dos revelado e acontecido, não tinha dúvidas que Dr.  Mateus viria procura-la tão logo de volta à cidade e, de certa forma também se preparara para a ocasião: o que dizer a um homem extremamente ferido pela dor da perda de seu melhor amigo? “Como explicar a ele que ela era assim, sempre fora dessa maneira e jamais buscara motivos para que as revelações lhe surgissem do nada?”
Desde criança julgava-se possuidora de estados fenomênicos mentais, acrescidos de influências espirituais, manifestos das mais diferentes formas, às vezes em sonhos, outras através de visões, algumas meramente perceptivas e aquelas intuitivas; em absoluto desejava-os para si e nem sabia explicar o que a levava exatamente a esses estados, ou como adquirira tais atributos. Estudara profundamente a respeito, em buscas de compreensões para suas realidades, desde informações científicas aos meios religiosos, verdades que insistiam não surgir como respostas adequadas.
Sentia-se muitas vezes perdida nos absurdismos da razão, com vivência  marginal fascinante da própria existencialidade, eivada de manifestações transcendentais; jamais deixou-se conduzir por certas correntes expressas do espiritismo religioso, supérfluo para seu caso particular, envolto em filosofias e tantas regras que não compreendia adequadamente, e muito menos desejava vínculos antes de compreender seu verdadeiro eu.
Também a ciência mostrava-se inoperante com tantas conjecturas e rol de denominações complicadas, quando não contrastantes, para uma única e mesma consideração hipotética talvez; temia desenganos ou que viesse deixar-se levar por enganos da própria imaginação.
E agora lhe viria Mateus, num papel inesperadamente invertido, procurar esclarecimentos para assuntos que ela estava incapaz de dar até a si mesma, quanto mais dizer a outrem. Fora em sua busca para consulta médica, por ouvir dizer que mais que medicação Mateus ofertava palavras de conforto a seus clientes, frases sábias, como a orienta-los nos julgados mais aflitivos problemas da alma humana, animando-os enfrentar a vida com muitas e boas sugestões, talvez por compreender que maioria das denominadas doenças físicas não existiam realmente nos pacientes, apenas situações criadas como mecanismos reativos a problemas outros, desde os sócio-econômicos e familiares, aos entreguismos diante de circunstâncias turbulentas do viver; do que ouvira sobre Dr. Mateus, este ou era um aventureiro mais vocacionado ao sacerdócio que à medicina, ou um profissional metido em psicossomatismos, quem sabe até mesmo um psicoterapeuta nato travestido de clínico geral, a tratar desalinhos mentais apresentados em formas de doenças físicas.
Ela tinha suas dúvidas, segredos, talvez uma doença, a necessitar não só desabafos mas também ouvir alguém fora de seu meio, que a instruísse e lhe favorecesse realização de exames de laboratório que tanto necessitava, para que enfim pudesse, ou prosseguir numa empreitada proposta ou então buscar transformação de vida, enquanto ainda houvesse tempo.
Procurara por ele entendendo-o poder ajuda-la, um médico moderno com horrores à psiquiatria arcaica, portanto em condições de auxilia-la em suas dúvidas ou mesmo remete-la a um processo de cura, como auxiliar que a ajudasse livrar-se dos pesadelos ou, ainda, que apenas compreendesse o que se passava com ela, e isso já lhe bastava.
A parapsicologia em suas múltiplas correntes, espiritual à materialista, não lhe dera nenhum sentido de vida, a psiquiatria falhara para algum possível processo de cura, e a psicologia, até ali, ineficaz; nesta, já para se formar, muitas vezes colocara-se na situação de profissional diante de algum paciente com seu mesmo drama: “como resolve-lo?”.
Simplesmente não sabia solução para si e menos para algum possível cliente; temia formar-se e ser profissional frustrada e incompetente.
De tudo isso e agora lhe viria Mateus com seus dramalhões mistos de surpresas, espantos e desejos de compreensão – “oras, ele que fosse às favas”, imaginava, pretendendo uma “dura nesse doutorzinho metido a psicanalista de plantão, perdido em seu universo, incapaz de compreender até mesmo os tão simples fenômenos da mente”; e ali estava ele à sua frente, patético, numa descabida frase que muito valeria se dirigida em forma de súplica.      
– Aconteceu conforme lhe disse doutor, ou o senhor em algum momento pensou isto diferente? - respondeu de maneira direta porém, em seu entender, não tão forte, arrogante ou fria quanto pretendia ser.
Mateus interpretou-a cruel e rude, a intentar revide imediato, contudo de modo inteligente, para que a conversa não viesse descambar-se num bate boca inútil.
Não obstante crueza da resposta, evasiva e desconcertante, Mateus pode entender que os acontecimentos, revelação e morte de Nivaldo, não foram em absoluto indiferentes à Selhama, onde a agressividade aparente nada mais seria que armação de determinantes psicológicos de defesa, sinais evidentes de vulnerabilidade daquela que, apesar de conviver com ditos fenômenos desde a infância, ainda não perdera de tudo os sentimentos, talvez num terrível duelo de personalidades distintas a coabitar um mesmo corpo, em busca de posse efetiva, uma de natureza humana apegada a valores arraigados e amar a vida, enquanto a outra, podiam ser mais, hostil e agressiva a ponto de exteriorizar-se através de revelações supranormais, adquiridas de maneira desconhecida, da mesma forma que a própria sensitiva também desconhecia-as em extensões e elementos, senão apenas seu existir dentro de uma complexidade estrutural, no cérebro com certeza,  manifestas como entidades ou personalidades vivas, de vontade independente e ações próprias mentais, psicológicas ou espirituais.
Mateus percebera Selhama transformada, diferente da jovem que dias antes estivera em seu consultório, e nisto ao lembrar das palavras indicativas do psiquiatra, cautelosamente intentou provocar nela cadeia reativa contrária dessas pelo menos duas personalidades detectadas, ali em evidentes conflitos, faze-las lutar mais, observar predominância e bater retirada, se necessário, ou  correr riscos talvez de outra possível revelação surpresa; não era mais nenhum leigo para deixar desapercebido tais diferenças personais, ainda que sutis e pelo quase nada que a conhecia; sem dúvidas, a jovem estaria movida por impulsos para um comportamento diferenciado, consciente ou não, talvez de desvio psíquico ou mental, mas de qualquer forma ele detectara nela quebra de personalidade, observável tanto pela desarmonia quanto pela discordância de procedimentos apresentados, posto que Selhama não seria nada integralmente assim, havendo nela positivamente alguma modificação de quadro, poderia estar enganado, contudo as palavras “aconteceu conforme lhe disse doutor, ou o senhor em algum momento pensou isto diferente?” não seriam totalmente dela, que talvez apenas lhe tivesse dito, sem qualquer arrogância: “aconteceu sim doutor, sinto muito, é sempre assim e não consigo fazer com que seja diferente”, pois ela certamente não estaria nada insensível à dor, também se preocupara com o acerto da revelação e de maneira alguma lhe seria agressiva, fosse por educação fosse pelo respeito.
Assim, resolveu provoca-la: 
– Sua capacidade premonitiva, conforme você a classifica, não poderia na verdade ser projeciológica e nisto possibilidades de evitar ou provocar um quadro desejado, a partir da leitura da tela mental de alguém que no momento serviu de ponte ou mero instrumento de uso?
Pergunta dúbia, acusativa a ela e incriminatória para si mesmo, dentro do abstratismo bem sabia – "quem provaria como ações mentais o ocorrido?" - intentada unicamente para desestabiliza-la; ao contrário porém do esperado, Selhama não foi nada reflexiva e, de 'bate pronto', respondeu-lhe petulante:
– Do aviso ou do acontecimento em si, e partindo exatamente de quem a ação? Olha, apenas vi mas não provoquei o acidente, pelo menos de maneira consciente,  acreditando que o doutor também não, portanto nada teríamos com o ocorrido; certo, que eu poderia não tê-lo avisado, mas foi o doutor quem pediu 'como as coisas me acontecem', em tudo porém, quanto à maneira da revelação creio ser telepatia, que seu amigo lhe tenha dirigido pensamentos antes e na última hora, mas dificilmente ato projeciológico meu, e aí está um fato que estou buscando melhor compreensão.
Selhama parecia distante e alheia à dor de Mateus, resolvendo por uma apologia disfarçada em forma de autocrítica aos seus dons:
– Sabe doutor, consigo certos estados projeciológicos e chego às vezes até alguém porém dependo sempre de um terceiro, uma pessoa que me ligue a esse alguém, desde que esse mesmo alguém esteja pensando na pessoa da qual estou próxima ou conversando; é difícil, compreende? Agora quanto a mim provoca-lo, oras, faça-me o favor doutor, não subestime sua razão, eu sei que o senhor está ferido, mas isso não lhe dá em absoluto direitos de se dirigir a mim como culpada por algum acidente, compreendeu-me bem doutor?
Mateus percebeu a modificação esperada, agressiva no entanto, ao lado da mesma indiferença continuada, que o ensejou esquecer o lado profissional e desejar partir resoluto para um debate, movido também por agressividade que jamais sentira antes, diante daquilo que considerou provocações evasivas e desinteresses da jovem; controlou-se, ao lembrar conselhos do psiquiatra:  – “provoque-a o quanto mais possível, sem jamais demonstrar contrariedade ou perda de domínio de si próprio”.  
– Não Selhama, não compreendo nada, estou ferido pela dor da perda de um grande amigo; pedi apenas, ou melhor, não pedi nada, somente perguntei de que maneira você recebia suas, digamos, informações, e deu no que deu. Eu sei que você poderia calar-se e não entendo porque não o fez, antes sim optou avisar-me quando o melhor juízo recomendava-lhe silêncio, e o que desejo saber Selhama, ainda é a mesma coisa, explica-me como surgem seus avisos, e se eles de certa forma não fazem você sentir-se responsável pelos acontecimentos, ou, avançando, se você não estaria sendo usada para certas provocações, que aliás acredito ser sua grande dúvida.
Percebeu nela ligeiro estremecimento, como que reflexivo:
– Doutor, eu sinto muito, mas muito mesmo pela morte de seu amigo, sei que o senhor se culpa por haver solicitado como me acontecem manifestos, não sei se a duvidar de mim ou por crer na sua concepção acadêmica, talvez até um misto de curiosidade e pena, e eu a lhe satisfizer essa curiosidade tola, para destruir sua incredulidade diante dos propalados fenômenos da mente, que o senhor achava antes fantasias de loucos ou, no meu caso específico, de uma jovem lunática a esforçar-se tornar verdades suas ilusões, como mística paranoica e megalomaníaca que, depois diante de um esperado não acontecer situações, simplesmente se escudaria numa frase “não aconteceu porque evitei que assim fosse”.
Selhama teve leve balançar de cabeça para trás, num suspiro profundo, dentes rilhados, olhos semi-fechados, pensativa como se buscasse palavras certas para o momento; estava tensa, percebia-se:
– Doutor, estou pouco me lixando por tudo aquilo que senhor pensa a meu respeito, se a minha paranormalidade contraria ou não suas concepções e crenças, pois que somente sei que nada mudaria nada, entendeu?
Outro gesto rápido com a cabeça, quase imperceptível como se fosse cacoete disfarçado, ela agora a mostrar-se explicativa: 
– O acidente aconteceria de qualquer maneira, doutor, com revelação ou sem ela, que aliás poderia já ter acontecido, não é fato?. 
Mateus estava efusivo, acreditando haver desperto em Selhama não uma mas diversas personalidades, como a que agora se pronunciava:
- O aviso logo chegaria ao senhor, doutor, e foi por isso, apenas por isso e por entender assim, que resolvi pela revelação antecipada dos fatos, onde poderia calar-me como tantas vezes já fiz, pois que isto não me acontece de ontem, doutor, são coisas com as quais já aprendi a conviver, eu sou mesmo assim e nada, absolutamente nada, incredulidade alguma faz com que eu deixe de ser assim; não sou rebelde às minhas premonições meu caro doutor Z.B.M., não é assim que seus íntimos lhe chamam?, pois que se fosse rebelar-me contra as coisas que me são naturais, certamente estaria apodrecendo nos porões imundos de um hospício qualquer. Não quis me engrandecer não doutor, muito menos desejei o maldito acidente. . .
O médico entendeu que atingira alvo desejado, a personalidade Selhama real prestes assumir controle, por isso procurou acalma-la:
– Não, não quis dizer que você tenha provocado coisa alguma, somente estou, estou – de propósito fez-se titubeante, sentindo-a totalmente dividida.
– O senhor está impressionado doutor? Não, o senhor está é confuso diante da razão que a lógica determina-lhe, coincidência ou irreal àquilo que o senhor bem sabe que não; o senhor está surpreso doutor? e eu? o senhor não deseja saber como estou? não pensou nada em mim doutor? - Selhama embarga a voz e já não é mais a jovem segura e orgulhosa de seus dons manifestos, e eu doutor? Eu estou simplesmente apavorada por todas essas drogas de coisas malditas que se manifestam em mim, coisas que não desejo mas que surgem e acontecem, e quase sempre para o lado pior...
Abraçou-se ao médico e desatou a chorar, voz entrecortada por soluços:
– Tenho medo doutor, tenho muito medo; eu não queria ser assim não doutor, tenho medo de mim, dos meus fantasmas, das noites mal dormidas e dos pesadelos, das revelações que se sucedem uma após outra e acontecem, que me levam pessoas queridas, que me fazem isolar de tudo e de todos, que me faz atirar em profundidades de estudos que também não compreendo e  nem gosto, que me obriga a fazer um curso para o qual não me sinto nada vocacionada, apenas para tentar compreender; o senhor me entende doutor?
Mateus compreendera que toda aparência franca e triunfante da jovem Selhama, não passava de simulacro de fortaleza mental inexpugnável, onde do seu outro lado existia apenas uma mulher frágil, incapaz de libertar-se dos pesadelos que lhe metiam medos. Evidente não saber o que se passava com a jovem, se ela omitia coisas ou distorcia realidades, se aquilo tudo que dizia acontecer não seria tão somente negação de si própria, alguma tentativa de reagir contra um mundo hostil, talvez por ela mesma criado, quem sabe até  para sobrepor-se ao meio que fora gerada; fosse como fosse, Mateus não podia ignorar que ela, numa fantasia mental ou não, acertara em cheio o acidente e morte de Nivaldo.
O que se passava dentro de Selhama? Quantas delas existiam? – achou incorreta a ultima interrogativa que melhor seria: “quantas e quais existiam nela?”  
Talvez Mateus começasse sim entende-la um pouco mais, ao sentir seu  desespero diante dos dramas vividos, uma pessoa infeliz apenada mentalmente por algum dom de paranormalidade ou assim julgado, causa de tanto “sofrer por aquilo que jamais deveria existir”, lera em algum lugar, sem se recordar onde
– Pobre menina, eu não entendo mas juro, quero entender, quero ajudar.
– Por favor doutor, me ajude então, tira-me deste inferno, desse sufoco e angústia. . .
Mateus deixou-se envolver e chorou abraçado a ela; estava confuso diante daquela jovem que mal conhecia, uma moça certamente com problemas psíquicos, que ele bem sabia não poder resolve-los; todavia queria ajuda-la não sabendo como, porém desejava isso talvez porque, de uma certa maneira fora ele também protagonista de episódio bem recente, para o qual não achara ainda nenhuma explicação adequada ou no mínimo racional.
Não podia, fora treinado para isso, entregar-se emocionalmente a casos particulares, porém estava incapaz de agir apenas profissional; com certeza Selhama possuiria distúrbio mental, psicológico ou de comportamento, e que sozinha perder-se-ia nos labirintos de sua própria mente, ou enveredar-se por caminhos sem voltas. Nada sabia daquelas coisas, senão de alguma possível ocorrência de inadequação mental dela, e tudo aquilo que entendia faze-la sofrer talvez fosse assunto para religiosidade ou psicologia, já não acreditando que a psiquiatria pudesse ser de alguma valia para o caso.
Mateus insistiu num encontro para a noite daquele mesmo dia, ciente dos riscos de tal atitude, todavia queria conhecer melhor sua cliente e com ela relacionar-se mais a fundo, adquirir sua confiança e faze-la desabafar dramas, na certeza de encontrar processo senão para cura definitiva, pelo menos juntos enxergarem algum entendimento.
Selhama tinha uma história e Mateus a ouviria com certeza.

*Informações de um médico, amigo confidente de Zoroastro